O País do Futuro
Segunda-feira, Junho 29th, 2009
Essa história de beleza tropical e povo de gente boa pode até servir pra vender Havaianas no exterior, mas o buraco é bem mais em baixo. Óbvio que seria ingênuo discutir os problemas do Brasil ou propor soluções imediatas, ainda mais a distância. Mas é justamente essa distância que nos faz perceber a grave crise de imagem em que o país se meteu.
Em 2007, o documentário “Manda Bala” foi o grande vencedor do festival americano de cinema Sundance. Aclamado pela crítica e visto por milhares e milhares de pessoas no munto todo, o filme fala da corrupção do Brasil tendo como pano de fundo o escândalo da Sudam e o ranário do Jáder Barbalho.
O filme, além de tecnicamente excelente, mostra como um país tão rico foi jogado às traças, e poderia servir de lição e documento histórico e de reflexão para a nossa e para as próximas gerações. Só poderia, porque sua exibição do filme foi proibida no Brasil.
Outro belo trabalho verde-amarelo de destruição de imagem ocorreu recentemente aqui na Itália, quando o Brasil negou o pedido de extradição de Cesare Battisti. Eis o que escreveu o “La Repubblica”, jornal com a segunda maior circulação do país:
“No país do samba, há uma espécie de cumplicidade ideal com todos os Battisti do mundo, com os terroristas, com os justiceiros. Lula deve ter pensado que a Itália é uma republiqueta como a sua. Acredita que o mundo inteiro é formado por paisecos no limite entre o populismo e a ditadura militar”.
Seria mais do que o suficiente pra uma conversa cara-a-cara no vestiário, mas, somos Brasileiros e não desistimos nunca, certo? Essa semana chegou nas nossas mãos, por acaso, a “Vice”, revista de moda, cultura e comportamento que é distribuída gratuitamente em 16 países. E não é qualquer publicação: entre os principais patrocinadores estão Adidas, Diesel e Volkswagen, por exemplo. Pra nossa surpresa, a atual edição é inteira sobre o Brasil. Cerca de 20% da revista traz fotos de mulheres seminuas. Até aí tudo ótimo. O resto da revista fala, entre outras coisas, de como é fácil comprar drogas no Brasil, do terror das favelas, de supostos canibais na Amazônia, dos pastores mirins da Igreja Universal e sobre a Mulher-Melancia. Sim, uma entrevista com a Mulher-Melancia. Esse é o nosso cartão de visitas.
E qual é a defesa? “País do futuro”. O que pode ser mais subjetivo? Quem pode aceitar como resposta “no futuro”? Imagine comprar uma casa que te prometem construir “no futuro”. Pedir uma pizza e te dizerem que será entregue “no futuro”. Pois, em relação ao nosso país é isso que vem sido prometido há muito tempo. Sem prazo nem plano, apenas uma assinatura: “país do futuro”.
Em tempo: não são só as coisas ruins que vêm a tona quando se passa uma temporada fora. Também ficam claros os pontos onde somos melhores, e em muitos somos muito melhores. Por isso repito: além de resolver seus imensos problemas internos, igualmente grande é o desafio de limpar a imagem. Pra manter o raciocínio “à italiana” recorro a Julio Cesar, que dizia que à sua mulher “não basta ser fiel, tem de parecer fiel”.
Vontade de voltar pro Brasil? Mas é claro. No futuro.










































































