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Semana do Design

Domingo, Maio 3rd, 2009

Chegou a hora de eu gastar os superlativos: De 22 a 27 de abril aconteceu a Semana de Design de Milão!

Todo ano, durante o mês de abril, Milão vira a capital mundial do Design. É o maior e mais importante evento de design do planeta, fato que os números ajudam a entender:

Pra começar, o evento central - Salão do Móvel -  tem como sede o maior centro de exposições da Europa, a RHO-Fiera. Projetada por Massimilano Fuksas, o complexo feirístico tem 220 mil metros quadrados de exposição. O espaço, neste ano,  foi ocupado por 2.723 empresas que trouxeram nada menos que 12 mil novidades em design. O apelo é grande: são mais de 300.000 visitante (destes, mais de 200.000 são estrangeiros) e cerca de 5.000 jornalistas.

RHO-Fiera, o maior centro de exposições da Europa

RHO-Fiera, o maior centro de exposições da Europa

O Salão do Móvel, que teve sua primeira edição em 1961, é a grande atração da cidade durante a semana do design. A lista de expositores é interminável, está todo mundo presente. E lá não são só os produtos os protagonistas: cada stand é projetado com mais atenção e técnica do que a maioria das lojas que vemos pelas ruas. É uma aula completa de design, marketing e apresentação em cada detalhe.

Paralelo ao salão do Móvel, também no RHO-Fiera, acontecem o Euroluce e o Salone Satlitte. O primeiro traz as novidades de iluminação de todos os gigantes do setor (Philips, Samsung, Sony, Artemide, Flos, pra citar alguns). O segundo é onde os jovens designers mostram seu trabalho: são 702 novos projetos e 22 escolas de design do mundo inteiro.

Claro, aproveitar isso tudo não é tarefa das mais fáceis. Em um dia fiquei nove horas seguidas no evento e consegui visitar apenas 6 dos 20 pavilhões.

Kartell

Kartell

Ligne Roset

Ligne Roset

Normann-Copenhagen

Normann-Copenhagen

Thonet

Thonet

Moroso

Moroso

O Salão é incrível, mas não é tudo. Aliás, é só a metade. Durante a semana do design a cidade inteira se trasnforma: Ao todo são mais de 400 eventos paralelos, chamados Fuori Saloni, que deixam Milão como se fosse uma grande festa celebrando a criatividade. Chamar de festa não é exagero. São distribuídos dezenas de revistas e livros que contêm apenas os happy-hours e boca livres (todo dia, o dia todo).

O olho do furacão é a Zona Tortona, que desde 2002 é o grande evento paralelo ao Salão do Móvel. Um bairro inteiro é ocupado - negócios, galpões, residências, bares, restaurantes - e ali, por uma semana, torna-se ponto de encontro de designers, novas empresas e empresas já consagradas que, por opção, montam seu QG ali ao invés de far-lo no próprio Salão. O clima é inacreditável, dá pra sentar na calçada e ficar dias simplesmente observando o que acontece em volta, o que não é pouco. Um bando de jovens designers, criativos, entusiastas e profissionais expõem suas idéias, filosofias e projeções lado a lado com Veuve Clicuot, Ikea, Foscarini, Seletti, Tweelink, Foscarini, Philips, Campari, Illy, ilio, Nhow e outras centenas de empresas, estúdios e escolas consagrados e com anos de estrada.

Como eu já disse, além do Design, a diversão também é onipresente: São centenas de festas secretas, onde se deve descobrir o endereço pela internet, ou dar a sorte de estar no lugar certo e na hora certa. Um dia estávamos parados na calçada quando um rapaz vestido de camisa com luzes e gravata colorida nos entregou uma folha que dizia “I hate my personal designer”, com um endereço. Chegando lá descobrimos uma festa privada, em um apartamento pequeno, com DJ no quarto do dono e geladeira cheia de cerveja. Cada um que pegasse uma cerveja deveria deixar uma moeda de 1 Euro em um copinho (também dentro da geladeira). Esse é o clima, esse é o espírito.

Em dado momento concluímos que a Semana do Design é uma “Oktoberfest Lado B”, e Milão inteira é a Proeb.

Todo mundo querendo ir pra Zona Tortona!
Todo mundo querendo ir pra Zona Tortona!
I Will Buy Flowers Myself (Doll House)
I Will Buy Flowers Myself (Doll House)

Person Parking, o estacionamento pra pessoas.
Person Parking, o estacionamento pra pessoas.
Exposição no Nhow Design Hotel
Uma das várias exposições do Nhow Design Hotel
Franci no espaço Lavazza.
Franci no espaço Lavazza.
SuperStore - Design Concept Store
SuperStore - Design Concept Store
É sempre festa pelas ruas da Zona Tortona!
É sempre festa pelas ruas da Zona Tortona!

Não precisa dizer que mal podemos esperar pelo próximo ano! Clique aqui pra mais dezenas de fotos do Salão, da Zona Tortona e dos eventos Fuori Saloni.

Macef e o jeitinho Italiano

Sexta-feira, Janeiro 23rd, 2009

Uma das coisas mais legais de Milano - talvez a mais legal de todas - é a Fiera Milano. Lá, tanto nos pavilhões centrais quanto nos pavilhões do novo quartiere (RHO), acontecem praticamente sem intervalo entre elas, feiras imensas sobre quase todos os assuntos imagináveis: Arte, fotografia, moda, design, arquitetura, comida, pets, artesanato, casamento…

Visitar uma feira como o Salone Internazionale del Mobile , maior e mais importante evento de Design do mundo, nos 345.000 metros quadrados dos pavilões de Rho-Pero é como passar um fim de semana na Disney. E enquanto o Salone não chega (Abril), decidimos visitar a 86o. edição da Macef, tradicionalíssima feira de negócios relacionados a bijuterias, decoração, mesa, cozinha, presentes e estilo. Mas….
Se você quiser ter uma pequena aula sobre a Itália, leia até o fim.

Sexta-Feira, 11.00 hs:
Professor: - Esse final de semana acontece a Macef, todos vocês deveriam visitar. É uma feira de negócios fechada ao público geral, mas podemos organizar uma visita para estudantes, falem com o coordenador.

Sexta-Feira, 11:15 hs:
Coordenador: - Acabei de ligar para a Macef, me confirmaram que estudante pode entrar e paga só EU 5,00.

Ok, a este ponto já iríamos em 10 com certeza. Pré-combinado: domingo ao meio-dia na entrada principal dos pavilões.

Domingo, 10:00 hs:
Pra não perder a viagem (uns 25 minutos de metrô) nem dinheiro (EU 4,00 ida e volta), resolvi ligar pra feira e confirmar o tal de ingresso pra estudante. Tudo ok. Apesar de constar no site explicitamente que a feira é exclusiva pra negócios e não aberta ao público, me confirmaram por telefone que estudante entra e paga 5 pilas. Ótimo. Resolvi almoçar em casa. Liguei pros meus amigos e disse que os encontraria pouco depois do meio-dia na feira.

Domingo, 14:00 hs:
Chegamos a Franci e eu na bilheteria e pedimos pelos ingressos de estudante.
Caixa 1: - Não existe bilhete para estudantes.
Eu: - Sim, existe, eu tomei o cuidado de ligar hoje pela manhã para confirmar.
Caixa 1 olha pro Caixa 2.
Caixa 2 abre um caderno, várias coisas grifadas com marca-texto, procura qualquer coisa por 30 segundos e disse que existe ingresso pra estudante, mas só até 18 anos (???).

Ok. Liguei para os meus amigos, que confirmaram que o buraco é mais embaixo. Ninguém na bilheteria tinha informações precisas e eles só entraram porque foram reclamar na Secretaria. Lá fomos nós, caminhamos uns bons 500 metros e encontramos dois seguranças. Explicamos que queríamos ir ao setor de informações e depois que conferiram nossas carteirinhas de estudante, nos explicaram onde era.

Domingo, 14:20 hs:

Secretária: - Quem disse pra vocês que existe ingresso pra estudante?
Eu: - O coordenador da escola ligou na sexta, eu liguei hoje de manhã e todo mundo nos confirmou que o ingresso existe.
Secretário abre um caderno, cheio de informações grifadas com marca-texto, procura qualquer coisa por uns 5 minutos e diz que não tem essa informação. Secretária liga pro escritório central e diz que o estudante está em frente a ela sustentando que existe um tal de ingresso para estudante, inclusive ligou para o telefone central da feira esta manhã e recebeu a confirmação, desliga depois de não obter nenhuma informação sobre isso.
Secretária olha pro secretário..

Domingo, 14:45:
Secretária: - Me desculpem, mas me disseram que não existe ingresso pra estudante.
Eu: - Sim, existe, inclusive têm vários estudantes que eu conheço que já entraram com tal ingresso.
Secretária: - Então, de repente você pode ligar pra eles e pedir pra eles irem com você até o escritório central pra provar que eles compraram esse ingresso.
Eu: - Ok.

Nesse momento já tínhamos desistido e estávamos em nosso caminho de volta pra casa. Eis que, ao sairmos do setor de informações, os seguranças nos abordaram novamente:
Segurança 1: - Conseguiram?
Nós: - Não.
Segurança 2: - Qual é o problema?
Eu: - Dizem que não existe ingresso pra estudante, mesmo depois de terem nos confirmado por telefone.
Segurança 2: - Faz o seguinte, desce essa escada aqui da frente, pega a primeira a esquerda e vocês já estão dentro. Vai, um dia vocês me pagam um café.

Domingo, 15:00 hs:
Estamos dentro! A Macef é interessante, muita coisa legal, muita coisa kitch, muita informação desencontrada e um segurança gente boa. Valeu a visita/aventura.

Quando eu contei toda a história pros meus amigos italianos eles riram e me disseram: “Esse é o carimbo ‘That’s Italy’. Bem vindo”.

Moral da história: Na Itália, pra ver o circo pegar fogo é só dizer que botar fogo é proibido.

A Itália tem tanta regra, tanta burocracia, mas TANTA, que os italianos resolvem não se incomodar com as formais e criam as suas próprias. Essas próprias regras comandam o trânsito, o comércio, a educação… Cada um vai resolvendo seus problemas no jeitinho. Acontece que, por mais contraditório que possa parecer, pra essa bagunça funcionar as pessoas precisam se respeitar bastante. É simples, se todo mundo quiser levar vantagem, o universo paralelo das leis simplesmente não funciona. Aqui todo mundo se abraça e a anarquia é geral e coletiva.

Quer exemplos práticos? Aí vai:

Que fique bem claro que esse comportamento italiano não é um defeito, longe disso. É uma característica. Aliás, uma característica fundamental pra autenticar a inventividade e criatividade desse povo. Pra alguns (um pouco menos para os Brasileiros) pode até ser difícil se acostumar, principalmente no começo.
Mas com certeza muito mais difícil é ir embora daqui.