
Juicy Salif, de Philippe Starck
Há 3 anos eu me formava administrador de Marketing. Design era uma coisa que eu imaginava divertida, mas um pouco longe da minha realidade. Por vias tortas, minha monografia sobre Merchandising (Marketing no Ponto-de-Venda) me despertou a curiosidade por arquitetura. Por vias ainda mais tortas, comecei a trabalhar com direção de arte. Pra mim, desenhar pro mercado, sem objetivo artÃstico, era um meio-termo entre o marketing e minha outra paixão, a música. Era uma forma de criar com objetividade, criar pra resolver problemas e não pra deleite estético. Mas ainda assim, criar.
Design industrial eu pensava que fosse uma coisa chatÃssima, coisa de engenheiro que projeta máquina de lavar. Design de interior eu não considerava menos chata, tipo decoração, tipo trocar vaso e poltronas de lugar.
Agora, eccomi qua, em Milano, capital mundial do design, estudando como nunca, produtos e interiores. Estudando design.
Vivendo Design.
O design faz parte do cotidiano italiano, da cultura popular, do dicionário. No Brasil isso está anos luz de acontecer. Um exemplo básico: em uma livraria do centro de Milano (Hoepli) existem 19.469 livros de design. Não estou considerando que em um raio de 500 metros existem a Feltrinelli, a Mondadori, e a Fnac, outras livrarias imensas. Também não estou considerando as dezenas de livrarias especializadas SÓ em Design. Estou considerando apenas os 19.469 da Hoepli que, contando todas as outras áreas, possui mais de 500.000 livros. Repito: em apenas um ponto te venda. Fazendo uma pesquisa básica no Submarino, o termo “Design” me retornou 978 tÃtulos. A Saraiva retornou 963 tÃtulos importados. Sim, dos 1023 livros sobre design da Saraiva, apenas 160 tÃtulos são nacionais. E estão sob a categoria “Artes”. Hã??? Quer dizer então que Starck e Picasso, Portinari e os Campana, estão na mesma categoria? Rewind: Design no Brasil não existe como conceito. Ou, muito pior, se existe está com uma distorção assombrosa.
Le Corbusier disse que design é a inteligência tornada visÃvel. Ponto pra ele, mas talvez não seja o conceito mais adequado no que diz respeito a “educação”. Nesse caso fico com Gillo Dorfles que disse que “Design é o projeto da forma funcional produzida industrialmente e em série, com um componente estético que não pode faltar nunca”. Design é “Projeto”, como adora definir a academia? Sim, claro, projeto é a palavra chave, principalmente por ser aplicável ao visual e ao interior, mas anda lado a lado com produção, venda e consumo, o que o joga novamente pra industria. Claro que essa é uma simplificação, uma convenção, e cada Designer, cada teórico, tem alguma peculiaridade adicionável. O problema, no caso do Brasil, é que a cultura de Design (ou melhor, a falta dela) não nos permite confrontar as idéias, os pensamentos, as teorias, simplesmente porque não os temos em um número decente. Resumindo, não é que falte um livro que defina o design, faltam milhares de livros pra confrontar ou reiterar a definição! Ou o jeito certo é formar milhares de designers com apenas “Gestalt do objeto” e (deus nos livre) “Design pra quem não é designer”? Se a dificuldade for a escassez editorial (3 livros de design comprados na Amazon saem pelo mesmo preço de um dos três comprados no Brasil, incluindo o frete), que ao menos a academia instigue os futuros profissionais, que plante uma curiosidade, e que esses busquem informação, se unam, tragam mostras, criem museus, CRIEM PRODUTOS. A indúsria não falta. Matéria-prima, seguramente, não é problema. Não creio que falte talento, inclusive pela quantidade. Não estou comparando com Milano, onde mais de 8.000 pessoas estudam Design (!), mas o Brasil certamente tem bons cursos e muita capacidade intelectual. Que a academia, principalmente pública, dê um tempo pro papo furado teórico-ideológico e traga o mercado e a produção pro dia-a-dia, pra perto dos estudantes, como em qualquer boa escola do mundo.
Fim do túnel? A Exame da semana passada nos encheu a bola, trazendo uma matéria que mostra como o Design nas grandes empresas está migrando da parte meramente formal, de cobrir engrenagens, para os cargos nos andares de cima, nos escritórios da diretoria. Há anos a Business Week já publica lista das melhores escolas de Design do mundo, tamanho o alvoroço executivo em busca de treinamento “criativo”. Cargos como CDO (Chief Design Officer) já não são novos. Embora o delay da Exame seja inacreditável (em 2004 a HSM Management trazia matéria de capa sobre isso), o artigo intitulado “Todo poder ao Design”, pode nos trazer um pouco de luz, principalmente se despertar a curiosidade das empresas sobre o assunto.
Por hora, danem-se o substantivo, a etimologia, as variações. Antes disso tudo é importante entender que Design é uma disciplina, uma profissão, um mercado. Arte? Muito bem vinda. Nossa querida Itália soube (sabe) como ninguém incorporar sua arte com seu Design. Mas o bom Design não seve só pra ser admirado (a não ser por outros designers) e sim pra ser útil, resolver um problema, uma necessidade. Ainda que no momento, pelo que parece, o problema seja produzir o próprio Designer.